Estrada Escura, trata-se de um duplo retorno de Lehane: ele volta a escrever sobre os detetives particulares de Boston Patrick Kenzie e Angela Gennaro, protagonistas de seu livro de estreia, Um Drink Antes da Guerra (1994), e de outros quatro títulos; e reabre, 12 anos depois, o caso Amanda McCready, a guriazinha de quatro anos, filha de uma mãe viciada em drogas e álcool, que a dupla foi contratada para encontrar em Gone, Baby Gone. (A propósito, não é obrigatório ler Gone, Baby Gone antes de Estrada Escura.)
Daquela vez, quando encontrou Amanda em um lar muito mais saudável e afetuoso, Patrick — o narrador das histórias — se viu diante de um conflito, como ele diz, entre a ética da sociedade (cumprir a lei e devolver a menina a sua mãe biológica) e a ética da situação (preservar o bem-estar de uma criança de quatro anos e oferecer a ela um futuro).
Agora em Estrada Escura, a já adolescente Amanda sumiu novamente, e Patrick novamente tem que encontrá-la. Essa jornada, que envolve, entre outros personagens, um playboy inconsequente, outra garota desaparecida, uma quadrilha de falsificadores de documentos e mafiosos da Moldávia, tem tudo o que um bom romance policial precisa ter: mistérios intrigantes e revelações surpreendentes, violência física e perseguições automobilísticas, um punhado de humor sardônico e uma pitada de romance (eis uma ressalva: alguns dos diálogos entre Patrick e Angie soam artificiais, como um clichê da prosa noir).
Estrada Escura discute, em um ritmo ao mesmo tempo trepidante e harmonioso, temas perenes e contemporâneos: o abuso infantil e o bullying, o impacto da crise econômica nos EUA, a transformação da linguagem pela internet, a fragilidade das relações familiares, o poder arrasador dos vícios sobre a moral humana, a obsessão por um corpo perfeito, a culpa e o remorso.

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