Com uma estrutura engenhosa, repleta de vaivéns no tempo, o romance, em 13 capítulos que bem poderiam ser histórias independentes, acompanha os percalços de personagens à primeira impressão desconexos que estão, todos, entrelaçados de alguma forma, em diferentes estágios da vida.
O título justifica o desfecho da maioria das tramas: no intervalo de algumas décadas, quase todas apresentam os protagonistas lamentando decisões passadas ou sofrendo as consequências de aventuras irresponsáveis. A Visita Cruel do Tempo é um tratado sobre existências tristes, equivocadas, decadentes, ressentidas.
A ordem dos eventos não é cronológica, e por vezes leva tempo para identificar o período e o narrador. A autora compõe uma representação da sociedade americana entre o final dos anos 70, em San Francisco, e as duas primeiras décadas do século 21 – adivinhando os traços futuristas do cenário que encerra a obra, a NovaYork de 2020.
Personagens ressurgem, num emaranhado de histórias que sempre vincula uns aos outros. Coadjuvantes ou meros figurantes de capítulos iniciais são elevados a protagonistas mais adiante, oferecendo novas perspectivas e informações sobre crianças, jovens ou adultos aos quais o leitor já havia sido apresentado.
A autora vasculha uma das angústias mais inquietantes de qualquer existência: como conviver com os erros que o tempo não encobre e os certos que tardam, talvez para sempre, a se materializar? É um retrato melancólico de uma época, e talvez excessivamente melancólico, mas plausível. Nas palavras de uma das figuras
mais degradadas do enredo:"É essa a realidade, não é? Vinte anos depois, a sua beleza já foi para o lixo, especialmente quando arrancam fora metade das suas entranhas. O tempo é cruel, não é? Não é assim que se diz?".
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